sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Análise de oferta de emprego para "hospitalista"


Descrição do Trabalho: Atendimento de internação para adultos em hospital de médio porte. Além de avaliações de intercorrências, também terá funções de suporte administrativo. Dias disponíveis: segundas das 7 às 19h, quartas das 7 às 19h, quintas das 7 às 19h e sextas das 7 às 13h. Valor cada 12h: R$ 900,00 bruto. Especialidade: Clínica Médica

http://www.buscojobs.com.br/trabajo/690811/hospitalista-sao-paulo

É ruim para o paciente?
      Não necessariamente. Provavelmente será muito bom: é fundamental que exista quem atenda intercorrências.

Nome disto?
      Plantão Clínico

Desde quando existe Plantão Clínico no Brasil?
      Conheço o conceito desde que ingressei na faculdade de medicina em 1995. Sabemos que alguns hospitais não disponibilizam até hoje.

Onde haveria qualquer novidade na proposta para que se queira dar um nome diferente à plantão clínico?
      "Terá também funções de suporte administrativo"?

Em algum momento na história alguém baixou decreto ou emitiu norma que orientasse conduta médica de evitar suporte adminstrativo?
      Para reflexão...

Não será a mudança de um nome e a utilização de jargões da gestão que trarão a tão sonhada aliança entre lógica administrativa e assistencial!

Observem ainda a fragmentação potencialmente gerada pela escala, fosse ela de hospitalista.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Filmes críticos à indústria farmacêutica

1.  Jardineiro fiel (EUA, 2005, dir: Fernando Meirelles)
 















Sinopse: Um diplomata inglês que vive na África tem sua esposa brutalmente assassinada. Quando decide investigar, descobre que sua luta é contra a ganância de uma grande empresa farmacêutica.


2. Sicko - SOS Saúde (EUA, 2007, dir: Michael Moore)




















Sinopse: Um painel da parte deficiente do sistema de saúde americano.  



3. Amor & outras drogas (EUA, 2010, dir: Edward Zwick)

Sinopse: Jamie Randall é um sedutor incorrigível do tipo que perde a conta do número de mulheres com quem já transou. Após ser demitido do cargo de vendedor em uma loja de eletrodomésticos, por ter seduzido uma das funcionárias, ele passa a trabalhar num grande laboratório da indústria farmacêutica. Como representante comercial, sua função é abordar médicos e convencê-los a prescrever os produtos da empresa para os pacientes. Em uma dessas visitas, ele conhece Maggie Murdock, uma jovem de 26 anos que sofre de mal de Parkinson. Inicialmente, Jamie fica atraído pela beleza física e por ter sido dispensado por ela, mas aos poucos descobre que existe algo mais forte. Maggie, por sua vez, também sente o mesmo, mas não quer levar adiante por causa de sua doença.



4. Big Bucks, Big Pharma (EUA, 2006, dir: Amy Goodman)

Documentário onde, na minha opinião, em certos momentos perdem o foco ou o tom, mas não deixa de ser importante. Há o filme legendado aqui.


5. A indústria do Orgasmo (EUA, 2009)

Sinopse: A diretora Liz Canner investiga a trajetória das indústrias farmacêuticas na corrida para produzir um remédio contra a disfunção sexual feminina, o que se espera que seja o primeiro “Viagra” para mulheres. Mas, o que promete uma atividade sexual mais intensa para mulheres, garante bilhões de dólares para empresários do ramo. É possível baixar o filme em MegaUpload.


Em breve:


Neste filme, sem previsão de estréia, a atriz Reese Witherspoon viverá a funcionária de um laboratório farmacêutico que "descobre os pontos vulneráveis da companhia e consegue, assim, subir na carreira".

Fonte: Felipe Lisboa

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Mundoidão da Medicina Hospitalar

No Blog do clicRBS, Mundoidão, "você encontra os casos mais estranhos e inacreditáveis, contados e comentados com tentativas de humor e muito sarcasmo - sempre que possível"....

Agora surge matéria onde prefeito contesta relatório de deputados:

O relatório da Comissão de Deputados cita uma suposta falta de médico hospitalista, sugere a inclusão da obrigação de o corpo clínico participar de cursos de humanização e relata que não há especialização comprovada em gestão na maioria dos hospitais do Paraná.

"O relatório sugere a criação de um médico hospitalista permanente e o nosso hospital já tem. Eles (deputados) citam a obrigação do corpo clínico participar de cursos de humanização, e isto é feito também a cada semestre”, comentou.

Papo maluco...

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Traição Disfarçada na Saúde

Os grandes hospitais já começaram a vislumbrar o óbvio. A formação de uma equipe de trabalho exclusiva pode ser um caminho. A Medicina Hospitalar cresce a cada dia e se mostra uma alternativa viável e eficiente... Leia texto de Breno Figueiredo Gomes.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Conteúdo do frasco maior deveria ter sido o aplicado em bebê

Foto: Bruno Santos/ Terra

ERRATA: Conteúdo do frasco MENOR deveria ter sido o aplicado em bebê

Veja a matéria.

E seguem concentrando o foco na causa mais aparente, ocorrida na ponta do processo...

E perceba como nós, profissionais, acusamos a nós mesmos!

A saga continua...


O profissional da saúde não pode errar! Afinal de contas, é óbvio que é o frasco da direita... ou é o da esquerda?

Segurança do paciente em pauta

Compreendendo segurança do paciente

Pediatria Hospitalar


O evento contará com a participação de Ricardo Quinonez (1) e Geeta Singhal (2), pediatras hospitalistas do Texas Children's Hospital.

(1) Assistant Professor of Pediatrics, Baylor College of Medicine; Hospitalist and Director of Research and Quality, Section of Pediatric Hospital Medicine, Texas Children's Hospital; Executive Committee Member of the American Academy of Pediatrics, Section of Hospital Medicine

(2) Associate Professor, Pediatrics - Baylor College of Medicine; Section Head and Service Chief, Pediatric Hospital Medicine - Texas Children's Hospital

A instituição:

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

90% dos médicos não trabalharia com urgência, emergência e medicina hospitalar

Em Saúde Web publicaram 90% dos médicos não trabalharia com urgência e emergência.

Desde sempre defendo que aprendamos com os equívocos da Medicina de Urgência para não repetí-los com a Medicina Hospitalar (ou minimizá-los). Eu trabalharia em emergência, não nas nossas emergências. Até hoje não conseguimos fazer disto uma carreira atrativa, embora não reclamem alguns "gestores médicos" de unidades onde profissionais da linha de frente sofrem para trabalhar ou não querem trabalhar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Projeto Diretrizes - Conselho Federal de Medicina e Associação Médica Brasileira & Conflitos de interesse

Há várias diretrizes onde não há sequer declaração de conflitos de interesse.

Em outras várias, coisas do tipo:

Albuquerque MAC, Auler Júnior JOC, Bagatini A, Sales PCA, Santos EJA, Simoni RF, Vianna PTG são membros do Advisory Board da AstraZeneca do Brasil Ltda. E participaram do Curso Projeto Diretrizes da AMB a convite da AstraZeneca.

Praticamente todas as diretriz de Anestesiologia são feitas por convidados da AstraZenica.

Laurindo IMM: Recebeu honorários por apresentar palestras e conferências em simpósios patrocinados pelas empresas Abbott, Aventis, Pfizer, Schering-Plough e Wyeth nos últimos 5 anos. Participa como membro do board nacional do produto Humira-Abbott.

Ximenes AC: Recebeu honorários por apresentar palestras e conferências. É membro do Advisory Board sobre inibidores COX2 da Merck Sharp & Dohme e membro do Advisory Board sobre terapia biológica da Abbott desde 2001.

Pinheiro GRC: Recebeu honorários pela participação em palestras sobre artrite reumatóide e sobre o uso de agentes biológicos dos laboratórios Abbott, Schering-Plough e Wyeth.

Xavier RM: Foi remunerado por conferências em simpósios pela indústria farmacêutica (Merck Sharp & Dohme, Abbott e Schering-Plough).

Ciconelli RM: Ministrou palestras recebendo honorários dos laboratórios Abbott e Roche.

Radominski SC: Recebeu “grants” por palestras, simpósios e “advisory board” dos laboratórios Novartis, Merck Sharp & Dohme, Aventis, Abbott, Pfizer, Schering-Plough e Wyeth.

Bretas FFH: Recebeu honorários por apresentação em palestras da Novartis.

Zequi SC: É palestrante em eventos patrocinados pelas empresas Bayer e AstraZeneca; prepara textos científicos e periódicos patrocinados pela empresa Novartis.

Clark O: Recebe honorários por apresentações, conferências, palestras, organização de atividades de ensino e consultorias das empresas Schering-Plough, AstraZeneca, Novartis, Bayer, Bristol-Mayers, Eurofarma, Janssen-Cylag, Unimed e Sociedade Brasileira de Urologia.

Moreira RO: Recebeu da companhia Merck do Brasil S/A, empresa responsável pelo produto Thioctacid (Ácido Alfa Lipóico), verba referente à produção de material de divulgação para classe médica. A medicação é a primeira citada em Tratamento na mesma diretriz (Tratamento da Neuropatia Diabética).

Abdo CN: Recebeu honorários por apresentações, conferências e palestras dos laboratórios Pfizer, Lilly, Bayer, Schering do Brasil, Organon e Janssen-Cilag.

Bertero EB: É conferencista dos laboratórios Lilly, Pfizer e Bayer; é membro de conselho consultivo brasileiro do laboratório Pfizer e membro do conselho consultivo Iiternacional do laboratório Bayer.

Faria GE: É palestrante dos laboratórios Lilly, Pfizer, Bayer, Schering e Medley; é membro do conselho consultivo da América Latina do laboratório Lilly.

Torres LO: Recebeu honorários por apresentações, conferências, palestras e prestação de consultoria dos laboratórios Pfizer, Lilly, Bayer e Medley.

Glina S: Recebeu honorários por ministrar aulas em simpósios dos laboratórios Bayer, Glaxo-Smith-Kline, Lilly e Pfizer. Participou do conselho consultivo dos laboratórios Bayer, Lilly e Pfizer.

Sette Jr H: É consultor científico da Bristol Myers-Squibb desde 2007.

Pessôa MG:  Recebeu honorários como consultor e palestrante das empresas Roche, Bristol Myers-Squibb, Glaxo Smith- Kline e Novartis.

Galizzi Filho J: Recebeu honorários como palestrante na 1ª Conferência Nacional de AIDS e Hepatites Virais da empresa Bristol-Myers Squibb e em eventos das empresas Roche e Schering-Plough.

Mancini MC: Palestrante dos laboratórios Abbott, Medley, Roche e Sanofi-Aventis. Ex-membro do corpo consultivo do laboratório Roche.

Benchimol AK: Recebeu honorários por apresentação em conferência ou palestra patrocinado pelas empresas Abbott, Abbott Nutrition, Libbs, MSD, Novo Nordisk, Sanofi-Aventos e Torrent; recebeu honorários para consultoria patrocinado pela Abbott, Abbott Nutrition, MSD e Novo Nordisk.

Halpern A: Recebeu honorários por apresentação em conferência ou palestra patrocinado pelas empresas Abbott, Glenmark, Medley, Roche e UCI; recebeu honorários para consultoria patrocinado pelas empresas Glenmark e Roche.

Gelonese B: Recebeu honorários por apresentação em palestras patrocinado pelas empresas Roche, Germed, Novartis, Merck Sharp & Dohme, Lilly e GSK; Recebeu honorários por trabalhos de consultoria científica patrocinado pelas empresas Germed, Merck Sharp & Dohme e GSK.

Danowski J: Recebeu honorários por participação em palestra patrocipada pelas empresas Sanofi-Aventis, Ely Lilly e Novartis; recebeu honorários por organizar atividade de ensino.

Terreri MT: Recebeu honorários para organizar programas educativos patrocinado pelas empresas Eurofarma e Novartis.

Weingril P: Recebeu honorários por apresentação, conferência ou palestra patrocinadas pela empresa Servier; é membro do Advisory Board da empresa MSD; recebeu honorários para participar de congressos patrocinados pelas empresas Abbott, Pfizer, Servier e Roche.

Plapler PG: Recebeu honorários por participação em eventos, por ministrar aulas, comitê consultor e redação de textos científicos patrocinados pelas empresas Aché, Ely Lilly, SEM, GSK, MSD, Novartis, Sanofi-Aventis, Servier e Zodiac.

E por aí vai....

A pergunta chave é: declarar resolve o problema?

Existindo conflitos de interesse, todos somos potencialmente influenciáveis (até mesmo os médicos, até mesmo o autor deste blog)

Declaração de Conflitos de Interesse - Dá para Confiar?

Conflitos de interesse na educação médica: declaração pode não ajudar

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Vamos voltar a fazer eventos com a indústria farmacêutica?

A pressão é muito grande para que ocorra. No caso da SOBRAMH não seria voltar, já que a fundei "thinking outside the box", tornando isto claro na Visão (em 5 anos) que escolhemos em 2008, tendo me surpreedido com a possibilidade de atingir muito antes do previsto resultados que não fui capaz de perceber anos atrás enquanto diretor de associação médica tradicional e tendo a indústria farmacêutica como parceira. Analisando os resultados quantitativos e qualitativos dos dois grandes eventos que fizemos sem a participação da indústria de medicamentos, considerando que as receitas foram sempre maiores do que as despesas, não compreendo totalmente, mas aceito algumas justificativas. Houve, de qualquer forma, patrocínios condicionados a participação na grade e palestras que pareceram, na minha opinião, mais promoção do que qualquer outra coisa. E eu era o presidente ou o principal organizador do evento! O que fortalece a necessidade de transparência e controle, com ou sem a participação da indústria de medicamentos e tecnologias.

Alternativa então seria "voltar" a aceitar relacionamento comercial com a indústria de medicamentos, mas desenvolver uma boa política de relacionamento e conflitos de interesse. Os erros de um modo geral (erros médicos, casos onde sucumbimos a conflitos de interesse, corrupção) são inerentes às organizações e às pessoas. O desafio é buscar ações de verdade para reprimí-los e impor um "ciclo PDCA" de melhoria contínua.

Evocar a ética para o bom funcionamento das entidades não basta. Que a política sirva de exemplo. Veja isto agora no universo das associações médicas. Fazê-lo, mas, paralelamente, minimizando a importância da influência na relação comercial com empresas e parceiros, vai contra tudo que se discute mundialmente para qualificação da educação médica. Evocar a ética no tom "nós faremos direito" poderia gerar uma forte reação de outras associações médicas (Como assim? Estão sugerindo que nós já não fizemos assim? Pensam que são os paladinos da ética?). E acho que justificada. Na maioria das organizações as pessoas por trás são profissionais sérios e dedicados.

Como elaborar este código de condutas? Vou usar deste espaço para uma tentativa de inspirá-lo.

Dividirei neste momento o trabalho em 4 seções principais: Aspectos gerais; Feira e área de exposição, presentes e sorteios; Simpósios satélites; Outros patrocinadores além de indústrias de medicamentos e tecnologias. É para auxiliar na construção de um código de conduta para associações, e não para seus eventos apenas, embora sejam o foco. Trarei ideias várias que for encontrando, não necessariamente traduzem convicções pessoais. Outras representam puramente opiniões pessoais minhas mesmo.

Aspectos gerais:

Transparência é importante, mas não é suficiente.

Disclosure is not sufficient (The Accreditation Council for Continuing Medical Education (ACCME) standards for commercial support)

Os sócios devem ter acesso fácil a todas as informações e números relativos à associação e seus eventos.

Devemos trabalhar para uma proibição completa do vínculo comercial com indústria de medicamentos e tecnologias. Exceção poderia ficar a cargo da comercialização de espaço para estandes em área específica nos eventos. Não é o ideal, mas assim pelo menos os sócios e demais participantes podem facilmente distinguir estas ações como promocionais, podendo ignorá-las, se assim quiserem (David J. Rothman, PhD, president, Institute on Medicine as a Profession, and Bernard Schoenberg Professor of Social Medicine, College of Physicians and Surgeons, Columbia University, New York, New York; Walter J. McDonald, MD, past CEO, Council of Medical Specialty Societies, Chicago, Illinois; Carol D. Berkowitz, MD, past president, American Academy of Pediatrics, Elk Grove Village, Illinois; Susan C. Chimonas, PhD, research scholar, Center on Medicine as a Profession, College of Physicians and Surgeons, Columbia University, New York, New York; Catherine D. DeAngelis, MD, MPH, editor in chief, JAMA, Chicago, Illinois; Ralph W. Hale, MD, executive vice president, American College of Obstetricians and Gynecologists, Washington, DC; Steven E. Nissen, MD, past president, American College of Cardiology, Washington, DC; June E. Osborn, MD, past president, Josiah Macy, Jr Foundation, New York, New York; James H. Scully Jr, MD, medical director and CEO, American Psychiatric Association, Arlington, Virginia; Gerald E. Thomson, MD, past president, American College of Physicians, Philadelphia, Pennsylvania, and chairman of the board of directors, Institute on Medicine as a Profession, College of Physicians and Surgeons, Columbia University, New York, New York; and David Wofsy, MD, professor of medicine, University of California, San Francisco).

Nenhum logotipo de indústrias de medicamentos e tecnologias deve aparecer em sacolas, pastas, projeções, canetas, blocos e publicações oficiais do evento (the Pharmaceutical Research and Manufacturers of America (PhRMA) and the Advanced Medical Technology Association (AdvaMed) voluntary codes, 2009).

A escolha dos temas e palestrantes é tão especial que membros dos comitês organizador e científico não podem ter conflitos de interesse com a indústria farmacêutica ou de tecnologias e devem se responsabiliar individualmente por esta declaração, a ser tornada pública, pelo menos entre os membros da associação.

Temas e palestrantes da grade do evento preferencialmente não devem ter ligação com empresas ou entidades financiadoras da associação ou do evento, exceto em casos individualizados em Outros patrocinadores além de indústrias de medicamentos e tecnologias.

Palestrantes como conflitos de interesse maiores (por exemplo, acionista ou speaker profissional da indústria) estariam proibidos de participar como educadores no evento. Poderíamos limitar a participação daqueles com conflitos menores (a definir quais seriam) em algum percentual, garantindo o predomínio na grade de educadores livres de conflitos de interesse com a indústria de medicamentos e tecnologias. No caso de participarem, considerar sempre atividades do tipo Ponto e Contraponto.

Quando a atividade na grade pontuar via CNA - Comissão Nacional de Acreditação, independente de para qual Sociedade de Especialidade estiver pontuando, minha recomendação seria de buscar ausência total de conflitos de interesse, principalmente nas palestras clínicas ou técnicas. É uma forma de respeitar os médicos que, obrigados a pontuar para manter seu título de especialista, desejam educação médica independente, mesmo que sejam minoria.

A associação, sem autorização de seus sócios, não pode, em hipótese nenhuma, compartilhar com terceiros nomes e endereços dos seus membros.

Conflitos de interesse envolvendo presidentes, tesoureiros e demais diretores da associação: A reputação da entidade é geralmente baseada na qualidade e integridade de seus líderes. É essencial que apliquem sobre si mesmos os mais rigorosos padrões de regulação e transparência. Devem permanecer livres de conflitos de interesse durante o mandato. Para estes indivíduos, nenhum ganho direto da indústria deve ser aceito (David J. Rothman; Walter J. McDonald; Carol D. Berkowitz; et al). Pode ser necessário um prazo para as associações se adequarem a isto, por exemplo, deliberando em assembléia geral para a próxima gestão.

"ACCME requires that relevant financial relationships of all individuals in a position to control CME content be identified and resolved prior to that individual’s participation in development or delivery of CME activities" - Mayo CME Policy

Colaboradores e funcionários da associação médica não devem ter laços financeiros com indústrias de medicamentos ou tecnologias e devem ser proibidos de aceitar presentes ou favores destas corporações. Indústria de medicamentos e tecnologias não podem financiar diretamente nenhuma atividade de diretoria ou colaboradores. Despesas de viagens e eventos, incluido alimentação, são de responsabilidade da própria associação ou das pessoas físicas (David J. Rothman; Walter J. McDonald; Carol D. Berkowitz; et al).

Feira e área de exposição; Presentes e sorteios:

A associação pode comercializar com qualquer empresa espaço para estandes em área apropriada para tal durante eventos. Entretanto, este espaço não pode ser a passagem única para as áreas de apresentações científicas ou educacionais e deve ser claramente delimitado para que os participantes enxerguem automaticamente que estão próximos de uma área de promoção e marketing e possam escolher por entrar nela ou não. A associação médica pode e deve estabelecer regras de condutas dentro da área de exposição, banindo todo tipo de presentes e sorteios (David J. Rothman; Walter J. McDonald; Carol D. Berkowitz; et al).

Médicos não devem receber diretamente amostras grátis (Columbia University's Center on Medicine as a Profession).

Prescription Project interviews indicate that many AMCs eliminated samples to ensure patient safety and compliance with Joint Commission standards (Columbia University's Center on Medicine as a Profession).

The Pharmaceutical Research and Manufacturers of America (PhRMA) code: The revised code, which goes into effect in January 2009, prohibits distribution of noneducational items to healthcare professionals. This even includes small gifts, such as pens, notepads, mugs, and similar “reminder items” with company or product logos on them, even if they are practice-related. Such gifts “may foster misperceptions that company interactions with healthcare professionals are not based on informing them about medical and scientific issues,” states the code.

“YMG physicians may not accept any form of personal gift from industry or its representatives" - Yale Policy 2006.

“Personal gifts from industry may not be accepted anywhere at the Stanford School of Medicine, Stanford Hospital and Clinics, the Lucile Packard Children’s Hospital, the Menlo Clinic or off site clinical facilities such as other hospitals at which Stanford faculty practice, outreach clinics and the like" - Stanford Policy, 2006

Simpósios satélites:

Se forem autorizados, não pode haver chancela da associação, o que é bem diferente. Sua divulgação deve ficar inteiramente a cargo do responsável. Deve ser apenas um espaço sub-locado e sujeito ainda à regulação.

Membros da diretoria, comissões e comitês não podem ser co-responsáveis ou palestrantes em simpósios satélites (Society of Hospital Medicine COI Policy 2011).

Não deve ser permitido oferecer brindes, presentes, sorteios ou refeições durante estas atividades (Columbia University's Center on Medicine as a Profession).

“Individuals may not accept gifts or compensation for listening to a sales talk by an industry representative" - Stanford Policy, 2006

"Vendors are not permitted to bring food into any UMM facility for any meetings and are prohibited from paying for such food" - UMass Policy, 2007

Outros patrocinadores além de indústrias de medicamentos e tecnologias:

Tecnologia da informação também é tecnologia!

Entidades Governamentais: Não encontro na literatura evidências desfavorecendo esta ligação, tal como há com indústrias de medicamentos e tecnologias, mas em tese podem influenciar (como qualquer opinião). No I CBMH e no PASHA 2010 houve participação na grade de representantes destas entidades. Entendo que participações do tipo "a visão da entidade ou agência x sobre p.e trabalho em equipe, autonomia médica, segurança do paciente..." possam ser limitadas a 10% do conteúdo da grade, valendo o mesmo para entidades médicas como autarquias federais.

Debato com pessoas que são absolutamente contra o financiamento público da educação médica adiante da graduação. Haveria duas formas de lidar com isto: Os médicos assumirem uma parcela maior do investimento para sua própria educação. Incentivar o financiamento privado. Me parece óbvio que os defensores do finaciamento privado devem ser os principais protagonistas na elaboração de políticas de controle e regulação dos conflitos de interesse neste cenário.

Entidades médicas (associações ou sindicatos): Seria compreensível o mesmo tipo de restrição proposta a entidades governamentais, como forma de tornar o evento menos político e mais técnico.

Acreditadoras e empresas que prestam consultorias na áreas de qualidade e segurança: Privilegiar na grade de programação apresentação de cases diretamente por hospitais ou serviços beneficiados, através de profissionais ligados diretamente ou próximos ao atendimento de linha de frente.

Hospitais: Por mais que perceba como comuns apresentações que mais parecem promoção ou marketing institucional, acho que aqui basta declaração de conflitos de interesse e confiança na comissão científica. Eventos que incorreram sistematicamente neste equívoco, perderão força por sí próprios.

“This updated Code fortifies our companies’ commitment to ensure their medicines are marketed in a manner that benefits patients and enhances the practice of medicine.” - Billy Tauzin, president and CEO of PhRMA, about the Pharmaceutical Research and Manufacturers of America (PhRMA) and the Advanced Medical Technology Association (AdvaMed) voluntary codes, 2009. Se a indústria pode demonstrar este tipo de postura, nós médicos também seremos capazes...

Código moral

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Certificação da qualidade de serviços de saúde: quem avalia quem avalia?

A "distinção", de um modo geral, pode ser um processo falho e sujeito a viéses. Em tese é sempre importante, mas conflitos de interesse merecem atenção neste cenário.

Veja o caso recente onde empresa é acusada de vender premiação para prefeitos e vereadores gaúchos:




O nome do troféu é o mesmo deste entregue em Santa Catarina: JK





Recentemente, "The credit rating agencies have been subject to much criticism, and even some blame, for the financial crisis. The criticism comes from the failure of the credit ratings to accurately reflect the risks embedded in the complex structured securities that had become so popular. This failure stems from a number of factors, from possibly being overly optimistic in awarding higher ratings to many offerings, to potential conflicts of interest".

Como alguém que valoriza a Acreditação Hospitalar, torço para que criemos mecanismos regulatórios que garantam a sustentabilidade disto com foco na qualidade e não na promoção.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Duas coisas raramente compatíveis?

Na Veja desta semana, artigo Paixão oficial, de J.R. Guzzo, sobre "o fascínio das pessoas ligadas ao governo, e dos políticos em geral, pelo jatinho".
É uma atração perigosa, quando se considera quem são os passageiros e quem são os donos dos jatinhos: os primeiros são homens políticos, que têm a obrigação de cuidar dos interesses da população, e os segundos são donos de empresas com negócios junto ao governo, que têm como único propósito cuidar dos próprios interesses. As duas coisas são raramente compatíveis. Pode o ocupante de um cargo oficial aceitar presentes de uma empreiteira de obras públicas?
Se substituírmos os passageiros por médicos e a indústria farmacêutica pelos donos dos jatinhos, será que se mantém a nossa alta taxa de "absurdo" ou "não concordo"?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Big Pharma

Esta discussão sobre a indústria de medicamentos e tecnologias é bastante movediça. Pode ser levada a um extremo que coloca em risco a saúde das pessoas, tanto ou mais como quando se critica a indústria por passar do ponto na promoção e marketing. Abaixo um vídeo que aborda isto de maneira bem humorada:


Pessoalmente não sou contra a indústria farmacêutica, já escrevi sobre isto em inúmeras postagens. Claro que historicamente a Big Pharma tem cometido alguns excessos, mas as práticas que mais estudo dizem respeito à atuação dela absolutamente dentro dos seus limites como empresa cuja principal missão é vender e vender os seus produtos. É a relação das entidades médicas e dos médicos com a indústria meu ponto principal e, infelizmente, penso que na maioria das vezes a indústria faz o seu papel apenas. Quem se deixa usar somos nós. E acredito muito também na força da influência inconsciente.

Se a Big Pharma não mudasse em nada na próxima década, mas nós médicos mudássemos, separássemos pelo menos nossa educação continuada dos interesses deles, acho que chegaríamos perto do ideal para um mundo que não seja utópico. Havendo interesse adicional pelo assunto, criei o grupo Industry-free medical education no Facebook.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sociedade de cardiologia aprova até hambúrguer

Lançado no País há pelo menos 20 anos, o selo de garantia concedido por associações médicas pode ser encontrado até em hambúrgueres.

Uma marca desse alimento industrializado - geralmente riscado do cardápio de quem procura hábitos mais saudáveis - é recomendada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). No site da entidade, é possível encontrar as razões para essa curiosa distinção: o produto teria baixo teor calórico e reduzido teor de gordura e sódio.

A explicação é a mesma para a extensa lista de biscoitos e pães que a sociedade recomenda.

O selo da SBC - uma das precursoras da estratégia - pode ser encontrado em dois tipos de margarinas, cinco tipos de bebidas à base de soja e quatro variedades de sucos, além de óleos, cereais, laticínios e equipamentos médicos, como medidores de pressão (Fonte: O Estado de S.Paulo).

A Sociedade Brasileira de Pediatria dá sua chancela a um sapato, um repelente e um sabonete bactericida.

Eduardo da Silva Vaz, presidente da sociedade de pediatria, afirma que os produtos são analisados por uma comissão independente antes de serem aprovados.

A entidade é remunerada pela concessão do selo (Fonte: Folha de São Paulo)

SBC vai pedir revisão de proibição de selo em alimento.

O Conselho Federal de Medicina proibiu a inclusão de selos ou marcas de sociedades médicas em rótulos de produtos, como alimentos, sabonetes e equipamentos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

SAFETY 2011 - O que é mais seguro: Salto de paraquedas ou cirurgia?








Em atividade intitulada O que é mais seguro: Saltar de paraquedas ou ser operado da vesícula?, “comparou-se” a mortalidade da cirurgia (~ 0,3%) com estatísticas da Brigada de Infantaria Paraquedista do Brasil (milhares de saltos, acidentes em 0,035%, ausência de mortes), estimulando mais uma vez reflexões sobre gerenciamento de risco em saúde e sobre como podemos aprender com outros setores. [Leia mais]

domingo, 14 de agosto de 2011

Impacto do suporte financeiro da indústria farmacêutica nos eventos científicos e projetos de educação continuada

Eu já havia apresentado estes dados em Campanha Alerta, mas volto a fazê-lo agora ilustrando melhor alguns aspectos.

O título da postagem é o título de uma tese de mestrado sobre o tema e que pode ser conhecida na íntegra aqui.

O autor falando um pouco de sua motivação para o trabalho: "Um bom exemplo aconteceu no final dos anos 90, com uma revista que eu editava para uma grande empresa farmacêutica com atuação na Endocrinologia. Numa das edições, o gerente de produto responsável pelo projeto exigiu que mudássemos parte da afirmação de um notável especialista que concedeu uma entrevista sobre o lançamento iminente de uma nova droga utilizada no tratamento da obesidade. No trecho da discórdia, o entrevistado referiu-se à necessidade de estudos complementares para conhecer melhor a eficácia e, sobretudo, os efeitos colaterais do novo medicamento. Preocupada, a empresa sugeriu que minimizássemos as declarações sob o argumento de que todos os estudos haviam sido feitos e que o medicamento era seguro. A opinião do médico acabou prevalecendo, o que era raro, porém, a revista deixou de ser publicada poucos meses depois".

Introdução: "No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) recentemente se posicionou a respeito na Resolução 1.772, em que oficializa a recertificação a cada cinco anos por meio de avaliação ou da comprovação do acúmulo de créditos. Pesquisa recente do Conselho Federal de Medicina realizada com 14.405 médicos em todo o Brasil revelou que a freqüência a estes eventos aumentou 13% nos últimos 10 anos. Ora, se para manter-se competente ao longo do tempo é necessário atualizar continuamente os conhecimentos e as práticas, o médico se revela consumidor ideal de “pacotes de educação continuada” que lhe sejam entregues em formato prático e eficiente, como os congressos".

Questionamentos do autor: "Em que se pesem discussões sobre o formato, duração, conteúdo, localização e tamanho dos eventos científicos, sempre haverá o questionamento sobre os custos de sua organização: é possível economizar?"; "Seria possível organizar congressos de especialidades e outras atividades para educação médica continuada sem o auxílio financeiro da indústria?"

Resultados: "Um dado importante é com relação à interferência das empresas na elaboração dos projetos: os relatos não deixam dúvidas de que elas não tiveram ingerência na definição do conteúdo científico dos materiais que foram desenvolvidos. A parceria ficou restrita aos aspectos comerciais. Esse é um achado importante porque refuta a afirmação de que as empresas influenciam a pauta científica das instituições de pesquisa".

"Há que se considerar que os conflitos de interesse descritos na literatura ocorrem, em sua maior parte, durante eventos de grandes proporções como estes. Os entrevistados não relataram qualquer conflito entre as entidades e seus parceiros comerciais, mas admitem a possibilidade de existirem na relação direta entre o médico e a empresa".

"A ética foi o instrumento mais evocado como parâmetro para o bom comportamento, com a recomendação de que os interesses de ambas as partes devem ser revelados".

"Neste quesito [receitas a partir de inscrições] a única exceção foi no Congresso Brasileiro de Clínica Médica, onde as inscrições totalizam a maior fatia das receitas, mas o percentual não foi informado. Outro detalhe importante é a relação entre as receitas e as despesas destes eventos: a SBOT é a única sociedade que auferiu lucro com seu congresso brasileiro, a julgar pelas cifras informadas. Nos congressos da Febrasgo e SBCM houve equidade entre receitas e despesas".

Discussão: "Os maiores problemas no relacionamento entre a classe médica e os laboratórios farmacêuticos sempre estiveram relacionados à falta de transparência, que afeta a credibilidade e minimiza a importância das ações da indústria, e à dúvida sobre se o apoio financeiro das empresas influencia ou não a agenda das sociedades médicas".

"Apesar de as sociedades médicas pesquisadas negarem a existência de conflitos de interesse entre si e as empresas que patrocinam projetos de educação continuada e eventos científicos, admitem a possibilidade de haver deslizes éticos na relação individual do médico com a empresa. A intensificação dos debates poderá levar as entidades a adotarem uma postura mais coerente, deixando de se eximir integralmente da responsabilidade por eventuais desvios de conduta de seus associados, como ocorre atualmente".

Leia na íntegra. Ao final, entrevistas com os presidentes das sociedades médicas envolvidas no estudo.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Globo divulga documento com princípios editoriais. Vamos fazer parecido na saúde?

O documento expõe as posturas e os procedimentos exigidos dos profissionais e dos produtos jornalísticos do grupo para que o material publicado como notícia se afaste ao máximo de subjetivismos, de opiniões pessoais - e ofereça vários ângulos dos acontecimentos.

Para atingir a isenção, o texto dá indicações como:
- "o contraditório deve ser sempre acolhido";
- "não pode haver assuntos tabus";
- "o trabalho jornalístico é essencialmente coletivo, e errarão menos aqueles que ouvirem mais"; e
- "os jornalistas das Organizações Globo devem evitar situações que possam provocar dúvidas sobre o seu compromisso com a isenção".

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

SOBRAC promove campanha pra lá de esquisita!

Com o tema “pulsAção: sentindo o ritmo do seu coração”, a ação pretende conscientizar a população sobre a importância do diagnóstico precoce da fibrilação atrial (FA) e do tratamento adequado. A campanha conta com o hotsite http://www.ritmodocoracao.com.br/, onde há “informações gerais sobre FA, formas de diagnóstico e tratamentos disponíveis no Brasil”.

A Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (SOBRAC) é uma entidade médica sem fins lucrativos, afiliada à Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Os objetivos da SOBRAC são "normatizar as atividades relacionadas às arritmias cardíacas no Brasil, promover o desenvolvimento científico e a valorização profissional da especialidade, além de orientar a população leiga a respeito dos problemas mais comuns ligados à arritmia cardíaca, por meio de campanhas educativas".

O que chama a atenção de cara?

1. O apoiador principal é fabricante de cateter de ablação, um dos tratamentos disponíveis para FA;

2. Em Controle e Tratamento, gastam 65 palavras, 371 caracteres, para falar do que mais interessa do ponto de vista epidemiológico (dois primeiros parágrafos) e 179 palavras, 1000 caracteres, para falar da exceção, representada por “pacientes que não respondem ou são intolerantes ao tratamento medicamentoso” (restante do texto, com apoio de uma linda e estimulante imagem). Sendo que no texto inicial sequer seriam antiarrítmicos as drogas mais empregas, já que hoje controlamos freqüência na maioria dos casos, pelo menos fora de centros especializados.
Pacientes que não respondem ou são intolerantes ao tratamento medicamentoso podem se beneficiar da ablação por cateter, principalmente aqueles mais jovens, com muitos sintomas e sem doença cardíaca significativa. Em pacientes com essas características, a ablação por cateter é considerada um procedimento seguro e eficaz para a correção da fibrilação atrial, reduzindo em 65% o risco de recorrência da fibrilação em comparação aos medicamentos antiarrítmicos pelo período de um ano.http://www.ritmodocoracao.com.br/controle-e-tratamento/
Fazendo uma busca rápida no Pubmed e lendo o UpToDate, encontramos a coisa um pouco diferente, pelo menos na retórica. No dicionário Wikipédia, retórica é a arte de usar a linguagem para comunicar de forma persuasiva. Luis Cláudio Correa escreveu recentemente sobre “retórica” em Medicina Baseada em Evidências e Edwin Gale falou sobre a utilização dela inapropriadamente por Sociedades Médicas em UNISIMERS.


Segundo o UpToDate,
The role of  radiofrequency catheter ablation (RFA) in the management of patients with AF has not been well defined. The potential benefits of successful RFA include the lessening of symptoms in patients who remain symptomatic with either a rate or a rhythm control strategy and the elimination of the potential complications of long-term antiarrhythmic drug therapy in patients whose symptoms are controlled. The potential role of RFA as a primary treatment of symptomatic AF is under investigation. Death occurred in 1 of 1000 patients (32 deaths during 45,115 procedures in 32,569 patients). The leading causes of death were cardiac tamponade (n = 8, 25 percent), stroke (n = 5, 16 percent), and atrioesophageal fistula (n = 5, 16 percent). Other causes included pneumonia, pulmonary vein perforation, and sepsis.
 O mesmo UpTpDate tem um capítulo onde se direciona a pacientes e familiares. Veja só:
Patient information: Atrial fibrillation

Radiofrequency ablation is a procedure that can sometimes cure atrial fibrillation. The technique, however, is still evolving, and there is a small but real risk of serious complications, even with an experienced physician.
Fazendo uma busca rápida no Pubmed, encontramos:

Can J Cardiol. 2011 Jan-Feb;27(1):60-6. Canadian Cardiovascular Society atrial fibrillation guidelines 2010: catheter ablation for atrial fibrillation. Verma A, Macle L, Cox J, Skanes AC; CCS Atrial Fibrillation Guidelines Committee.
Catheter ablation of atrial fibrillation (AF) offers a promising treatment for the maintenance of sinus rhythm in patients for whom a rhythm control strategy is desired. Successful ablation of AF has never been shown to alter mortality or obviate the need for oral anticoagulation; thus, the primary indication for this procedure should be improvement of symptoms caused by AF. Ablation is also associated with a complication rate of 2%-3%. Thus, ablation should primarily be used as a second-line therapy after failure of antiarrhythmic drugs.
Dtsch Med Wochenschr. 2010 Mar;135 Suppl 2:S48-54. Epub 2010 Mar 10. Interventional therapy of atrial fibrillation: possibilities and limitations. Willems S, Drewitz I, Steven D, Hoffmann BA, Meinertz T, Rostock T.
Recently, significant progress has been made treating atrial fibrillation (AF) with catheter ablation emerging as an increasingly important technique. Therefore, catheter ablation for persistent AF cannot yet be considered "clinically established" and should only be performed in high volume centers. Additional data is needed to verify the beneficial effect of this strategy and determine "predictors" identifying patients profiting most from these ablation strategies. Overall, catheter ablation for AF has still to be considered as a symptomatic treatment since evidence for beneficial effects with regard to more robust clinical endpoints such as death, rehospitalization and ischemic cerebral events are not yet available.
Deste, somente o título me basta, até porque o artigo é em russo:

Kardiologiia. 2011;51(2):89-96. Catheter ablation for atrial fibrillation: clinically established or still an experimental method. Willems S, Hoffmann B, Steven D, Drewitz I, Servatius H, Rostock T.

Na campanha da SOBAC, citam as Diretrizes Brasileiras de Fibrilação Atrial. Vamos a ela então:

- Praticamente todos os autores e colaboradores declaram ausência de conflitos de interesse;

- “A prevalência de FA na população geral é estimada entre 0,4% e 1%, aumentando substancialmente com a idade. Na figura 3, observa-se que a prevalência de FA em pacientes com menos de 60 anos é inferior a 0,1%, ao passo que nos acima dos 80 anos sua prevalência é de 8%”;

- “O controle da freqüência cardíaca (FC) no paciente em FA constitui, geralmente, a primeira ação de tratamento, tanto em situações agudas, na emergência, como em casos crônicos. Esse controle visa principalmente a melhora de sintomas, promovendo bem estar e melhora da qualidade de vida (QV)”;

- “O uso de drogas antiarrítmicas para controle do ritmo é geralmente o tratamento de escolha em pacientes com FA há várias décadas. A limitada eficácia dessas drogas e seus efeitos tóxicos, às vezes fatais, demonstrados com o passar do tempo, estimulou a utilização da estratégia de controle da FC como opção terapêutica. Estudos recentes, envolvendo mais de 5000 pacientes, demonstraram que o controle da FC foi ao menos tão bom quanto o controle do ritmo nos pacientes com FA persistente. Meta-análise de quatro principais estudos (PIAF, AFFIRM, RACE e STAF) demonstrou que, em pacientes predominantemente idosos e com FA persistente, não havia diferenças entre as estratégias de controle de ritmo ou de FC em relação à mortalidade total e taxa de AVE isquêmico. Nos pacientes estudados, que, em geral, apresentavam risco aumentado para eventos trombo-embólicos, a anticoagulação oral adequada era a principal estratégia a ser mantida, a despeito da manutenção do ritmo sinusal ou apenas do controle da FC. Não houve diferença em relação a surgimento ou agravamento de IC com controle de FC versus controle do ritmo, nos principais estudos. Digno de nota, o estudo AFCHF demonstrou que, em pacientes com FA e insuficiência cardíaca, o controle da freqüência não foi inferior ao controle do ritmo. Assim, os resultados desses estudos sugerem que o controle da FC associada à anticoagulação se constitui em boa opção terapêutica em pacientes idosos, com FA persistente, oligossintomáticos ou assintomáticos, com risco aumentado de fenômenos trombo-embólicos e também naqueles com insuficiência cardíaca”.

- “Apesar da ablação da FA para manutenção do ritmo sinusal ser extremamente promissora, sua eficácia em longo prazo ainda não foi definida”.

- “Recomendações de ablação na FA (Classe I): FA sintomática em paciente jovem com coração estruturalmente normal sem resposta ou com efeitos colaterais pelo uso de pelo menos 2 drogas antiarrítmicas na ausência de condições metabólicas potencialmente correlacionadas à arritmia”.

Todos nós queremos reduzir complicações de arritmias, mas é o tom dado pela SOBRAC o tom ideal? Por que não educar pacientes e familiares para a difícil tarefa de anticoagular, ao invés de estimular a via da “terapia pontual e mágica”, para ser feita em 3D, agora que é moda no cinema?

Quem estuda aderência ou simplesmente não ignora aspectos do cotidiano da prática médica sabe como é difícil manter pacientes em tratamentos crônicos e como isto é atrapalhado pelas soluções milagrosas do Dr. Google.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Reflexões sobre conflitos de interesse e outras drogas

Durante o bom documentário Quebrando o tabu, sobre o problema das drogas no Brasil e no mundo, lembrei algumas vezes da discussão sobre conflitos de interesse na Medicina. Porque gosto muito dela. Porque ambas as questões são complexas. Porque nunca irão deixar de existir. Porque não há solução fácil e, muito menos, única para nenhuma das duas. Há prós e contras em quase todas as ideias e, para uma mesma proposta, a balança pode pender para um lado ou para o outro independente dela, por influência de fatores externos variados, sendo alguns incontroláveis.

Comparar a política que empregamos nos eventos I CBMH e PASHA2010 com aquela criticada no filme foi então inevitável: a comparação muitas vezes não é possível, há momentos onde caminhamos para posições diametralmente opostas, mas também há eventuais semelhanças. A reflexão surgiu a partir de alguns depoimentos ou sugestões, uma delas parcialmente presente nesta pequena amostra do trabalho do cineasta Fernando Andrade e de Luciano Huck, através de Moises Naim:


Não tenho dificuldades de reconhecer que não sabemos se nossa experiência com esses eventos deve ser replicada de qualquer forma parecida. Somos acusados por alguns de ser radicais, entre outros termos pejorativos. “Acham que devem ser usados de exemplo ainda. Dessa forma é desnecessário, podendo ser até prejudicial”, também já escutei.

Sabemos como não fazer (isto sim!), mas ainda estamos buscando aprender a melhor maneira de fazer. Ao invés de querer ensinar, ainda estamos testando hipóteses e apreendendo. Ao invés das críticas desacompanhadas de qualquer sugestão para uma via alternativa, precisamos de colaboração. Nossa fase é ainda de construção e o principal objetivo é uma educação médica de mais qualidade.

Ter impedido totalmente a participação da indústria de medicamentos foi muito bom por diversos aspectos, BUT...

Pode ter significado a simples troca de conflitos de interesse ou uma maior concentração deles? É claro que pode! Até ilustrei isto recentemente aqui.

A única maneira de realmente avançarmos nesta questão é:


2. Construir políticas de controle que serão sempre imperfeitas. Mas procurar o constante aperfeiçoamento delas.

Em Campanha Alerta, alguns de nós acreditam no poder das canetinhas (presentes de baixíssimo valor monetário de um modo geral), outros, como eu, muito pouco. O importante é refletir, estudar, refletir, por vezes até mudar de opinião. Mas negar a existência das drogas definitivamente não é uma opção. Sugestões?

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Materiais sobre Medicina Hospitalar

Um notícia onde apresentam bem objetivamente o modelo: Hospitalist - A new kind of medical specialist;

Um material bem legal e avançado intitulado Agents of change: using your hospitalists successfully and strategically;

E um áudio que integra a matéria Hospitalists Take Charge Of Patient Care.


O que é Medicina Hospitalar é de fácil aprendizado, basta ler OU escutar. O que é diabolicamente difícil é convencer algumas pessoas a abandonar a maneira pela qual sempre trabalharam, a abandonar seus receios profissionais e pessoais, e se engajarem por inteiro na promoção da inovação. Ou a criticá-la de vez!

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Medicina Baseada em Evidências, conflitos de interesse e cardiologia

Publicaram ontem: Money is Only Part of the COI Story
“Any senior scientist will tell you that the biggest conflict of interest he or she has doesn’t have anything to do with the [corporate or other] interests that they list on their PowerPoints or at the end of their publications,” Dr. Paul M. Ridker said recently during his presentation on the inflammatory hypothesis of atherosclerosis at the annual meeting of the International Society on Hypertension in Blacks. “It has to do with our individual belief in the biology of what we’re doing.”

Dr. Ridker’s contention is likely a nod to the diatribe that followed the publication of results from the 2008 JUPITER trial on the effects of rosuvastatin (Crestor) in which he and his co-investigators attributed a 44% reduction in cardiovascular events to the agent’s ability to both lower LDL cholesterol and reduce C-Reactive Protein (CRP) levels (
N. Engl. J. Med. 2008 Nov. [359]: 2195-207).   [READ FULL ARTICLE] 
É um cenário bastante interessante e controverso. Luis Cláudio Correia, do Blog Medicina Baseada em Evidências, tirou do estudo citado acima inspiração para várias postagens. Veja só clicando aqui.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Qualidade da assistência hospitalar: como avaliar?


No mesmo dia em que recebo a notícia abaixo

Hospital da PUC do Rio Grande do Sul é um dos poucos Hospitais Universitários Acreditados. Parabéns a todos por esta conquista !!!

recebo também:

O serviço de Pronto-Atendimento Pediátrico do Hospital São Lucas da PUCRS, em Porto Alegre, apresenta problemas em função da perda de mais de dez médicos que se demitiram. Os profissionais remanescentes afirmam que os administradores já foram avisados quanto à superlotação de pacientes, a falhas nas escalas de médicos, à insegurança e aos baixos salários. Leia mais

Vai entender...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Hospitalistas no Safety2011

 
 
Hospitalista está na programação do Safety2011, junto de outros assuntos instigantes como:
 
- Herrar é Umano?, por Alfredo Guarischi, organizador do Safety;

- Tropa de Elite: Não basta somente treinamento para tomar a decisão correta, por comandante do BOPE;

- Entrevista com Chico Anísio


Informações através http://www.safety2011.com.br



quinta-feira, 7 de julho de 2011

A sempre conservadora AMA adotou posição forte contra conflitos de interesse na educação médica.

After 5 years of discussion and attempts at passage, the American Medical Association’s House of Delegates adopted a conflict of interest policy to help guide physicians on the ethics of receiving pharmaceutical or device company funding for continuing medical education.

Punição por conflitos de interesse?

Fiquei bastante suspreso ao ver punição por conflitos de interesse. Não é possível avaliar se foi bem empregada ou não, mas esqueçamos o mérito: não te surpreendeu também o fato em si?
3 Harvard Doctors Punished for Conflict of Interest

Harvard University's medical school and Massachusetts General Hospital have punished three professors -- including Joseph Biederman, an influential child psychiatrist -- for conflicts of interest, The Boston Globe reported. Biederman and the others sanctioned -- Thomas Spencer and Timothy Wilens -- revealed the action in a letter to colleagues. The Harvard investigation was prompted by a Senate probe that questioned whether Biederman and others were reporting consulting fees they received from pharmaceutical companies at a time they were publishing articles about the use of various drugs. The letter from the three professors said that they had made "honest" mistakes but that they “now recognize that we should have devoted more time and attention to the detailed requirements of these policies and to their underlying objectives."
Eu tenho certa vivência em sindicato médico e nunca soube da necessidade de defender médico por conflito de interesse. Não encontrei nada semelhante no Google Brasil. Não temos este tipo de problema aqui? É a tal cortina de fumaça? Desfazê-la desta forma é o caminho?

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Chegou a hora de Medicina Hospitalar no Saúde Web!

A partir de agora, as principais postagens sobre Medicina Hospitalar estarão em http://saudebusiness.com/chegou-a-hora-de-medicina-hospitalar-no-saude-web-2/.

Conflitos de interesse: compreender melhor é o primeiro passo a ser dado

Uma compreensão limitada do que vem a ser conflito de interesse tem atrapalhado e impedido uma discussão mais aberta sobre o tema na Medicina e suas potenciais conseqüências. Muitos associam automaticamente o termo a comportamento corrupto ou fraudulento, e isto é apenas a "ponta do iceberg". O problema é que trazer a discussão a partir de exemplos da ponta do iceberg, como eu mesmo venho parcialmente fazendo há algum tempo, pode aumentar a cortina de fumaça em torno do assunto. E isto é péssimo!

Usemos as sociedades médicas como exemplo. É público e notório que por vezes é praticamente impossível não se envolver [através delas] em relações determinantes de conflitos de interesse, em razão de estruturas da própria organização e circunstâncias da Medicina de hoje, e não da vontade individual de seus líderes ou de seus membros.

Segundo Bryn Williams-Jones, Université de Montréal, Bioehics Programs, “COI’s are not inherently unethical; sometimes professional and institutional arrangements make COI likely, even inevitable”.

É preciso que o termo seja “descriminalizado”, para que uma discussão aberta sobre o assunto seja possível. Atualmente, uma discussão deste tipo não é vista sequer como opção para vários homens de bem – amedrontam-se, e possuem as suas razões.

Williams-Jones defende a necessidade de:
  1. Remove its pejorative connotations (“COI is Bad!”)
  2. Expand its scope to include nonfinancial personal and institutional interests, so that
  3. people come to recognize that COI is something that we often have to live with and manage.
Howard Brody, University of Texas Medical Branch, escreveu recentemente que “being in a position to be tempted to abandon one’s advocacy duty is not the same as actually having abandoned that duty. So a preliminary conclusion is that conflict of interest, properly understood, functions as an ethical red flag, warning us to be on the lookout for possible ethical breaches, rather than as an actual accusation of having commited an ethical violation”.

Alguns críticos da indústria farmacêutica acreditam que elas existem hoje apenas para produzir “me-too drugs” e eventos adversos. Não me incluo neste grupo. No outro extremo, há quem somente veja as coisas boas que fazem e as vidas que salvam. A verdade certamente está em algum local entre estas duas visões, e a maioria de nós reconhece isto.

Ocorre que muitos que minimizam qualquer problema envolvendo a indústria farmacêutica o fazem também porque não lhes são oferecidas boas alternativas para trabalhar sem ela. Surge então a clássica resposta: - “Bobagem, temos coisas mais importantes para discutir”. Imagine o quão desconfortável fica o presidente de uma associação médica neste cenário, considerando ainda o fato de que discutir o que fazer com um conflito é aceitar que ele existe, e, ele existindo, antiético já seria o tal presidente. Precisamos quebrar este ciclo vicioso e avançar. Procurar uma atmosfera que facilite a integração de pessoas com diferentes visões de mundo será crucial.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O marketing das farmacêuticas sobre estudantes de Medicina afeta suas escolhas depois de formados?

To examine the extent of medical students’ relationships with industry – as well as the impact of these interactions – my colleagues, Kirsten Austad and Jerry Avorn, M.D., and I conducted a systematic review of the literature, examining all published studies on this topic and collecting the results from a total of 9,850 medical students studying at 76 medical schools. 

terça-feira, 21 de junho de 2011

Conflitos de interesse: possíveis soluções

Conversei demoradamente com a jornalista da Folha de São Paulo sobre o que gerou a matéria publicada em 14/06/2011. Por razões de fácil compreensão, apenas parte foi aproveitado. Sinto-me honrado de ter podido contribuir em meio a opiniões de pessoas tão importantes, como o presidente do Conselho Federal de Medicina.

Divulgo abaixo mais detalhes, e espero a partir disto poder abrir aqui um canal de discussão do mais alto nível sobre o assunto.

Não sou necessariamente a favor de todas as alternativas que serão elencadas abaixo para lidar com conflitos de interesse na Medicina. Há prós e contras na maioria delas. Discutí-las individualmente ou acrescentar à lista pode gerar um debate mais do que interessante e espero contribuições levando em conta que somente no último mês foram mais de 1.200 visualizações de páginas no Blog.

A matéria na Folha trouxe resultados do estudo mais recente, mas o fato é que têm surgido cada vez mais evidências de que a simples declaração de conflitos de interesse não é solução ou até pode piorar as coisas. Importante: Quando isto é dito, não significa que estimulemos a sua não realização. Significa dizer que isoladamente não serve!

Disclosure não é tão defendido por acaso. É “cost-free”, não proíbe nada, não pressupõe mudança de cultura nas organizações médicas, consola a massa e alivia pressões para que se busquem outros caminhos, alguns tortuosos.

Há vários pontos de intervenção possíveis na abordagem dos conflitos de interesse, e, pela sua complexidade, é improvável que qualquer alternativa isoladamente seja suficiente. No âmbito da prevenção, podemos citar ‘proibições’(como de receber presentes da indústria farmacêutica). Mas restam ainda diversas estratégias de educação e regulação (paralelamente a atuação profissional), bem como de penalizações ou compensações (a partir de atos executados). A tendência, para verdadeiramente atenuar o problema, tem sido agir em diversos pontos simultaneamente.

Então, se a transparência somente não resolve, o que pode ser feito? Usemos de exemplos práticos:

Proibir o médico de ganhar o iPad do laboratório? O risco de causar dano direto aos pacientes a partir de um médico ganhando um tablet de um propagandista é baixíssimo. Mas está comprovado que em larga escala esta prática influencia e altera o padrão das prescrições médicas. Os pacientes e a sociedade podem querer que sejam impostas restrições - e então caberia a quem os representa promover isto, doa a quem doer. Há mínimo valor social envolvido neste ato, e os pacientes e a sociedade teriam muito pouco a perder com a proibição dele. Contraria interesses corporativos poderosos.

Na Educação Médica Continuada: É possível defender (ou pelo menos debater melhor) algumas alternativas. Só não é possível ficar como estamos (leia-se: parados).
- Proibição de patrocínios da indústria de medicamentos e tecnologias a congressos médicos. 
O I Congresso Brasileiro de Medicina Hospitalar e o PASHA2010 demonstraram que é possível fazer grandes eventos sem a indústria de medicamentos. Teríamos que ampliar a discussão sobre financiamento alternativo ao tradicional para replicar isto em larga escala. 
Por que não a partir dos impostos das farmacêuticas, por exemplo? Fosse para ser criado e aprovado algo assim, provavelmente não poderia beneficiar iniciativas como as desenvolvidas por mim ( I CBMH e PASHA2010), em não se tratando a Medicina Hospitalar de uma especialidade ou área de atuação reconhecida ainda. Não poderia ser feito um Projeto de Lei que considerasse esta sugestão ou algo parecido para benefiar especialidades reconhecidas pela Comissão Mista de Especialidade? 
In the United States, commercial interests contribute over $2 billion annually for CME. If commercial support for other professional activities also amounts to $2 billiion, the $4billion spent would be 0,0016 percent of national health care spending in 2008, about $13,16 per person. The government could shoulder the cost of professional development without difficulty (Conflicts of Interest and the Future of Medicine, Marc A Rodwin, 2011). 
- Tornar farmacêuticas incapazes de financiar diretamente. O fariam coletivamente e sob intermediação de conglomerado de entidades governamentais e não governamentais. Discutir regras claras e mecanismos de controle e transparência seria absolutamento necessário aqui. 
- Peer Review dos congressos médicos (da importância dos temas ao conteúdo apresentado). 
Será que todo evento de Clínica Médica precisa mesmo de uma palestra de disfunção erétil? Seria o controle disto possível de ser feito pela Comissão Nacional de Acreditação, já que é responsável por avaliar e autorizar cursos e eventos, bem como por assegurar a qualidade deles? Cabe lembrar que nós médicos pagamos indiretamente para manter a CNA (recebem do evento 3% sobre o maior valor de inscrição local x nº de participantes). Eu tenho tido dificuldades de enxergar retorno disto, já que não preciso de nenhum "incentivo" para participar de congressos.
- Organizações ou grupos independentes e sem conflitos de interesse (?) seriam responsáveis por desenvolver o programa dos eventos.
Na Pesquisa Clínica: As farmacêuticas são as grandes financiadoras e sem elas poderia ocorrer um retrocesso. Muitas vezes controlam todas as etapas que culminam com a publicação de um ensaio clínico randomizado. O que pode ser feito? Permitir que sigam finaciando estudos, podem até fazê-los independentemente quando nas fases I ou II. No entanto, em se tratando de um estudo de fase III, exigiríamos que uma agência pública escolhesse os pesquisadores para fazer o design e conduzir o trial. Outra necessidade nesta área seria viabilizar melhor controle dos estudos de fase IV (Seeding Trials; The ethics of “seeding trials”; Seeding trials - marketing framed as science).

Nos Guidelines: Não permitir que indivíduos com grosseiros conflitos de interesse participem ou que, pelo menos, votem.

Por fim, mas não menos importante: Profissionalismo Médico. Profissionalismo pode modelar conduta de diversas formas, de maneira que mercado e controle estatal não podem ou não fazem. Devemos trabalhar isto desde o início da faculdade de Medicina e ininterruptamente a partir daí. Mas, se as autoridades públicas continuarem financiando inadequadamente o setor Saúde (e os médicos), será cada vez mais difícil por esta via.

Se médicos e sociedades médicas querem controlar seu trabalho, garantindo máxima autonomia (como dão sinais de querer), devem garantir à sociedade que o seu julgamento e suas orientações não estão comprometidos. Senão o fizerem, então outros assumirão este papel e não poderemos reclamar das conseqüências. Um bom começo é reconhecer que isoladamente não somos capazes de lidar bem com conflitos de interesse interna corporis (nenhuma corporação isoladamente seria). E, a partir disto, nos abrir para o debate e participar dele como protagonistas, evitando sermos vistos como parte do problema - e não da solução.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Paciente não vê problema em relações conflituosas

Estudos mostram que os pacientes tendem a não se importar se o médico recebe dinheiro dos laboratórios.

"A pessoa se sente pressionada a ser generosa. Não quer demonstrar que desconfia do médico, mesmo se a situação não lhe favoreça", diz Sunita Sah, pesquisadora da Universidade Duke.

Em uma recente conferência sobre conflitos de interesse na escola de direito de Harvard, o psicólogo Mahzarin Banajim afirmou que o problema central é a certeza que temos de estar no comando de nossas decisões. "A psicologia e as ciências cognitivas têm mostrado que grande parte da nossa tomada de decisão ocorre inconscientemente."

Francesca Gino, da escola de economia de Harvard, descobriu em seus estudos que as pessoas que usam medicamentos prescritos por médicos particulares são ainda menos propensas a reconhecer os conflitos de interesse. "Embora a maioria de nós reconheça que os conflitos são, em tese, um problema, não queremos reconhecê-los em pessoas que conhecemos e que julgamos como boas e inteligentes", disse.

Estudos na área oncológica confirmam essa hipótese. Um trabalho publicado no "New England Journal of Medicine" mostrou que pacientes com câncer não se importam se seus médicos recebem dinheiro dos fabricantes de medicamentos, desde que o tratamento funcione.

Para Eric Campbell, da escola médica de Harvard, falta conhecimento aos pacientes sobre os efeitos dessas relações conflituosas.

Fonte: Folha de São Paulo 14/06/2011

domingo, 19 de junho de 2011

Importantes noções de gestão hospitalar por...

...dois estudantes de Medicina.

Gregory Mowrer e Layne Bettini são alunos provenientes da Mayo Clinic de Rochester (Minnesota), passaram uns dias em minha casa e proferiram palestra para estudantes de Medicina gaúchos, além de terem visitado hospitais e clínicas da rede privada e pública.


Durante a apresentação, salientaram o quanto o clima organizacional é bom na Mayo Clinic e justificaram isto por coisas que agradam a todos, além de atitudes dos gestores nem sempre simpáticas. "Já vimos médicos e enfermeiros serem demitidos por muito pouco quando a questão é cordialidade com pacientes. Alguns tecnicamente muuuuito bons". Perceba a diferença: A maioria das organizações permite comportamentos disruptivos e graves violações a regras, normas ou questões de bom senso. Por outro lado, fritam profissionais quando o assunto é falha na assistência - justamente aquelas falhas em que no moderno movimento de segurança do paciente reconhecem a importância de não culpar.

Contaram que na Mayo todos os trabalhadores são assalariados (ganhando bem) e que por isso não há pressão para uso de insumos e recursos por ganhos secundários. "Não importa quantos pacientes o médico veja e o que faz com sua caneta. Não ganham mais por isto. Promove e valoriza trabalho congnitivo e o uso racional de medicamentos e tecnologias".

Lá pagam diferente médicos e enfermeiros. Pagam diferente também médico anestesista e médico hospitalista (não preciso dizer quem ganha mais, né?). Mas ninguém reclama muito - problema mesmo é todo mundo ganhar pouco e trabalhar em precárias condições. Ninguém na Mayo questiona o médico como comandante da equipe multidisciplinar, embora voem muito mais alto profissionais como enfermeiros e farmacêuticos lá do que aqui.

No Brasil, falamos muito em trabalho em equipe, mas não sabemos ou não conseguimos fazer. No discurso o foco está no paciente, mas na verdade os focos são interesses corporativos/ideológicos/econômicos, em meio a uma realidade onde estão todos "matando cachorro a grito", carentes de dinheiro e de prestígio.

Greg e Layne Bettini aproveitaram para dar a visão deles sobre hospitalistas, e trouxeram muito objetivamente lições de como deveriam ser pensados por nossos gestores, ao retratarem como atuam lá e como se relacionam com os demais médicos do corpo clínico e da comunidade.

Os dois alunos levarão daqui, como eles próprios confidenciaram, tristes lembranças de nossas emergências superlotadas.

sábado, 18 de junho de 2011

Agradecimento à Sociedade Mineira de Terapia Intensiva

Pela oportunidade de participar hoje do XII Congresso Mineiro de Terapia Intensiva palestrando sobre Evidensed Biased Medicine e conflitos de interesse. Tive a oportunidade ainda de conhecer Paul Marik (Chief of Pulmonary and Critical Care Medicine, Thomas Jefferson University in Philadelphia), um ícone da Medicina Intensiva, que levou a quase todas as suas aulas pequenas doses do que para mim foi o tema central, tornando apresentações clínicas bastante instigantes e provocativas.

Abaixo alguns artigos recentes de Marik no mesmo tom:

Surviving sepsis: going beyond the guidelines

Early goal-directed therapy: on terminal life support?

Surviving sepsis guidelines and scientific evidence?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

II Seminário Catarinens​e de Qualidade Hospitalar


Roger Pirath Rodrigues, um dos pioneiros em Medicina Hospitalar no Brasil, co-fundador em 2004 do Grupo de Estudos e Atualização em Medicina Hospitalar, irá falar sobre hospitalistas.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Interessante vídeo da Society of Hospital Medicine

O médico que declara seu conflito de interesse com a indústria farmacêutica é mais ético?

O médico que declara seu conflito de interesse com a indústria farmacêutica é mais ético? O senso comum diria que sim. Mas pesquisas recentes na área da psicologia experimental mostram que não é bem assim.

Ao revelar todos os laços que possam influenciar seu julgamento, o profissional se sente livre para continuar adotando comportamentos ainda mais antiéticos. A conclusão, de estudos em que são simulados cenários de conflitos de interesse, coloca em xeque a declaração feita pelos médicos em congressos e publicações científicas, em que eles reconhecem todo apoio financeiro recebido em seu trabalho.

"Não estamos dizendo que a transparência seja uma coisa ruim. Mas ela não funciona tão bem como pensávamos", disse à Folha o pesquisador Daylian Cain, economista do comportamento na Universidade Yale (EUA).

Ele e colegas realizaram experimentos que simulavam situações em que o médico (e outros profissionais, como advogados) tinham de decidir qual era a melhor indicação para o paciente/cliente. Os que tinham conflitos de interesse "como ganhar comissões pela indicação de um produto" deram mais conselhos em benefício próprio, não do paciente. Os pesquisadores perceberam que, ao revelarem ao paciente o conflito de interesse, os médicos se sentiram ainda mais à vontade para agir em causa própria.

"É o chamado licenciamento moral. A divulgação de um conflito deu às pessoas 'luz verde' para se comportar sem ética, como se fossem absolvidas por terem sido transparentes", diz Don Moore, professor de comportamento organizacional da Carnegie Mellon (Pensilvânia).

Para o professor da USP Reinaldo Ayer, diretor da Sociedade Brasileira de Bioética, o Brasil está atrasado nessas discussões. "Aqui, ainda temos de estimular que a declaração de conflitos de interesse seja rotina entre os médicos."

Roberto D'Àvila, presidente do CFM (Conselho Federal de Medicina), concorda: "Ao declarar, dou condição para quem está lendo uma pesquisa, assistindo a uma aula ou recebendo tratamento de saber que aquilo está contaminado por outros interesses". Para ele, declarar não acaba com o conflito, mas "torna a relação [entre os médicos e seus pares ou pacientes] mais transparente". O CFM e a Interfarma (associação das farmacêuticas multinacionais) estão elaborando um novo código de conduta ética.

Já o médico gaúcho Guilherme Brauner Barcellos afirma que a declaração não pressupõe mudança de cultura nas organizações médicas. "É insuficiente para proteger os pacientes." Barcellos preside a Sociedade Brasileira de Medicina Hospitalar, que há dois anos faz congressos sem ajuda dos laboratórios. "É possível fazer, mas precisamos discutir outras formas de financiamento da educação médica."

ERRATA: fui presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Hospitalar até final de 2010!




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